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Vira-Voto
Simulador de Eleições Presidenciais

A eleição de 1989, como foi de verdade

A primeira eleição direta para presidente depois de 29 anos: Collor, Lula, Brizola e Covas disputam o país recém-saído da ditadura militar. Esta página reúne o resultado oficial, o desempenho por estado e a narrativa do que aconteceu — o registro histórico, ao lado do qual a simulação jogável é apenas um exercício de ficção.

Vinte e nove anos sem votar para presidente

Em 15 de novembro de 1989, exatamente cem anos depois da Proclamação da República, o brasileiro voltou às urnas para escolher um presidente. A última vez tinha sido em 1960, quando Jânio Quadros venceu. Entre uma coisa e outra houve o golpe de 1964, vinte e um anos de ditadura militar, a campanha das Diretas Já derrotada no Congresso em 1984, a eleição indireta de Tancredo Neves e a sua morte antes da posse, e mais cinco anos de transição sob José Sarney.

O país que chegou a essa eleição estava com a Constituição de 1988 recém-promulgada e a economia em frangalhos. Os planos Cruzado, Bresser e Verão haviam fracassado em sequência, e a inflação de 1989 fecharia o ano perto de 1.800%. Vinte e dois candidatos se inscreveram, recorde que nenhuma eleição presidencial brasileira superou desde então.

O desconhecido que virou favorito

Em abril, a primeira grande pesquisa Datafolha do ano mostrava um quadro embolado: Orestes Quercia com 18%, Fernando Collor com 14%, Leonel Brizola com 13% e Lula com 12%. Collor era governador de Alagoas, tinha 39 anos e era praticamente desconhecido fora do estado até 1987, quando começou a publicar listas de servidores públicos com salários exorbitantes, os "marajás". A imagem pegou.

Entre abril e junho aconteceu a virada mais brusca de toda a série: Collor saltou de 14% para 42% em pouco mais de um mês. Ele se apresentava como o rosto novo contra a velha política, com um programa liberal de privatizações e abertura ao capital estrangeiro, e concorria por um partido criado para abrigá-lo, o PRN, sem bancada relevante no Congresso.

De junho a setembro, Collor se manteve na faixa dos 38% a 42%. Brizola oscilava entre 11% e 15%, Lula patinava entre 5% e 7%, e Mário Covas, do PSDB recém-fundado, não passava dos 6%. Naquele momento, a eleição parecia decidida.

O horário eleitoral muda o jogo

O horário eleitoral gratuito começou em 15 de setembro, e a partir dali a curva do favorito só desceu: 40% no início de setembro, 33% no fim do mês, 29% em outubro, 26% na virada para novembro, 21% na primeira semana de novembro. Foram quase vinte pontos perdidos em dois meses.

Quem cresceu foi Lula. O programa do PT, coordenado por José Dirceu, apostou em comícios lotados e no jingle "Lula lá", e a candidatura saiu de 5% em agosto para 14% no fim de outubro. Covas também subiu na reta final, de 5% para 11%. Brizola, que liderava o campo da esquerda desde o começo, ficou parado na casa dos 13% a 15% e foi ultrapassado.

A reta final ainda teve um episódio inesperado: Silvio Santos entrou na disputa em novembro e chegou a marcar 14% numa pesquisa, antes de ter a candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral. Collor se recuperou parcialmente nos últimos dias e terminou com 30,48%.

Uma diferença de meio milhão de votos

O primeiro turno decidiu-se por muito pouco. Lula ficou com 17,19% e Brizola com 16,51%: uma diferença de cerca de 455 mil votos num universo de mais de 67 milhões, ou pouco mais de meio ponto percentual. Foi essa margem que definiu quem enfrentaria Collor.

O mapa do primeiro turno mostra três Brasis distintos. Collor venceu em quase todo o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste, com picos em Alagoas, onde tirou 64%, e em Tocantins e Sergipe. Brizola dominou os seus dois currais com folga esmagadora: 52% no Rio de Janeiro e 63% no Rio Grande do Sul, e venceu também em Santa Catarina. Lula ganhou uma única unidade da federação, o Distrito Federal, mas foi competitivo justamente onde o eleitorado é mais numeroso, em São Paulo, Minas e Pernambuco.

O segundo turno e o bloco anti-esquerda

A primeira pesquisa do segundo turno, em 22 de novembro, dava Collor 48% a 39%. O que aconteceu em seguida foi uma adesão em bloco: praticamente toda a direita e boa parte do centro fecharam com ele. Brizola, depois de duas semanas de tensão e de uma disputa pública sobre a contagem dos votos, subiu no palanque de Lula. O PSDB de Covas deu o que o próprio partido chamou de "apoio crítico" ao candidato do PT.

Lula encostou. Em 8 de dezembro a diferença tinha caído para três pontos, e em 12 e 13 de dezembro para apenas um: 46% a 45%. Foi o ponto mais próximo que ele chegou.

A última semana teve dois episódios decisivos. No debate final, em 14 de dezembro, a edição exibida pelo Jornal Nacional foi acusada de favorecer Collor, num caso que a própria emissora viria a reconhecer anos depois. E, a três dias da votação, o horário eleitoral de Collor exibiu uma ex-companheira de Lula fazendo acusações sobre a vida pessoal dele.

Em 17 de dezembro, Collor venceu por 53,03% a 46,97%, uma diferença de pouco mais de quatro milhões de votos. Lula venceu em apenas quatro unidades da federação: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Pernambuco. Collor levou as outras vinte e três.

O que veio depois

Fernando Collor tomou posse em 15 de março de 1990 e, no dia seguinte, anunciou o Plano Collor, que bloqueou os saldos de contas correntes e cadernetas de poupança acima de um determinado valor. Menos de três anos depois, em 29 de dezembro de 1992, renunciou durante o julgamento do processo de impeachment, e o Senado o condenou à perda dos direitos políticos por oito anos. Assumiu o vice, Itamar Franco.

Dos quatro protagonistas de 1989, Lula voltaria a disputar a Presidência em 1994, 1998 e 2002, vencendo na quarta tentativa. Covas foi eleito governador de São Paulo em 1994 e reeleito em 1998, falecendo no cargo em 2001. Brizola concorreu de novo em 1994 e terminou em quinto lugar.

O resultado oficial

Resultado oficial do 1º turno (1989)
CandidatoPartido% válidosVotos
Fernando Collor de MelloPRN30,48%20.611.030
Luiz Inácio Lula da SilvaPT17,19%11.622.321
Leonel BrizolaPDT16,51%11.167.665
Mário CovasPSDB11,52%7.790.381
Paulo MalufPDS8,85%5.986.585
Guilherme Afif DomingosPL4,84%3.272.520
Ulysses GuimarãesPMDB4,74%3.204.996
Demais 15 candidatos5,87%3.970.388
Resultado oficial do 2º turno (1989)
CandidatoPartido% válidosVotos
Fernando Collor de MelloPRN53,03%35.090.206
Luiz Inácio Lula da SilvaPT46,97%31.075.803
Resultado do 1º turno por unidade da federação (% dos votos válidos)
Unidade da federaçãoMelloSilvaBrizolaCovasOutros
Acre38,95%17,93%6,70%2,90%33,51%
Alagoas64,38%8,85%7,32%7,81%11,65%
Amapá48,42%24,09%5,65%4,23%17,60%
Amazonas50,49%21,05%4,39%6,11%17,97%
Bahia34,77%25,93%5,66%6,14%27,50%
Ceará33,09%12,36%19,43%18,34%16,78%
Distrito Federal22,75%29,06%9,44%17,81%20,93%
Espírito Santo39,62%22,39%8,88%9,97%19,14%
Goiás45,39%16,86%3,96%5,74%28,05%
Maranhão46,93%19,67%8,97%3,40%21,03%
Mato Grosso46,60%10,36%10,16%4,52%28,36%
Mato Grosso do Sul53,23%8,99%7,77%6,15%23,87%
Minas Gerais36,12%23,11%5,40%10,30%25,07%
Pará52,01%19,34%3,43%6,64%18,57%
Paraíba35,16%24,14%14,31%7,29%19,10%
Paraná40,64%8,27%14,41%7,61%29,07%
Pernambuco37,74%33,61%9,39%3,58%15,67%
Piauí39,75%22,73%9,69%5,05%22,77%
Rio de Janeiro16,07%12,22%52,09%8,70%10,92%
Rio Grande do Norte33,37%24,40%7,99%5,80%28,44%
Rio Grande do Sul9,23%6,72%62,66%4,79%16,59%
Rondônia42,82%19,53%10,25%3,55%23,85%
Roraima59,72%10,07%9,47%5,47%15,27%
Santa Catarina23,52%10,58%26,22%7,38%32,31%
São Paulo24,40%17,45%1,51%22,71%33,92%
Sergipe50,81%18,19%9,39%6,65%14,97%
Tocantins57,08%9,65%4,02%3,37%25,88%
Resultado do 2º turno por unidade da federação (% dos votos válidos)
Unidade da federaçãoMelloSilva
Acre69,18%30,82%
Alagoas76,18%23,82%
Amazonas66,79%33,21%
Amapá64,25%35,75%
Bahia51,68%48,32%
Ceará56,90%43,10%
Distrito Federal37,32%62,68%
Espírito Santo59,30%40,70%
Goiás68,44%31,56%
Maranhão62,43%37,57%
Minas Gerais55,51%44,49%
Mato Grosso do Sul72,85%27,15%
Mato Grosso66,39%33,61%
Pará72,48%27,52%
Paraíba54,97%45,03%
Pernambuco49,10%50,90%
Piauí58,92%41,08%
Paraná67,28%32,72%
Rio de Janeiro27,08%72,92%
Rio Grande do Norte52,59%47,41%
Rondônia63,25%36,75%
Roraima76,35%23,65%
Rio Grande do Sul31,28%68,72%
Santa Catarina50,32%49,68%
Sergipe65,89%34,11%
São Paulo57,90%42,10%
Tocantins78,39%21,61%

Fontes

  • Resultado oficial, nacional e por unidade da federação, 1º e 2º turnos: Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
  • Evolução da intenção de voto para presidente, 1989: Datafolha/Gallup, dez ondas entre 23-24/04/1989 e a boca de urna de 15/11/1989, e seis ondas no 2º turno entre 22/11 e 16/12/1989.
  • Evolução da rejeição por candidato, 1989: Datafolha, nove ondas entre 03-04/06/1989 e 01-03/11/1989.
  • LIMA JUNIOR, Olavo Brasil de. “Eleições presidenciais: centralidade, contexto e implicações”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 14, n. 40, junho de 1999.
  • “A eleição de 1989: direita × esquerda”. Revista Urutágua, 2016.

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